Tuesday, March 20, 2007

Alucinado

Auto-sofro sem vontade, mas sem motivo também.
Motivo objectivo, do que existe.
Pois porque sofro do que não existe? Não sei...
Mas sofro do que há em mim inexistente, ficcionado.
Fosse esse sofrimento ficcionado também e perderia eu o meu passatempo favorito: passar horas sem fazer nada, ficcionando, criando e sofrendo terrivelmente com isso.
Amo sofrer por mim, pelas minhas histórias mudas de pura reflexão do que há-de ser futuro e do que poderia ter sido passado.
Ficciono o presente com a firme convicção de que se não realizará o que ficciono.
Umas vezes ainda bem, outras ainda mal.
Mas se o presente do mal se realizasse não me faria sofrer mais do que já sofrera. E o presente do bem nunca me exaltará tanto como me exaltei imóvel na reflexão.
Talvez por esta ficção reflectida repetida, o que vivo não seja tão especial como anseio.
Porque sair do que é esteticamente perfeito no bem e no mal e entrar no mundo em que metade fica por dizer e outra metade fica por fazer é colocar-nos à margem das mais intensas sensações.
Procuro, ainda assim, tornar o que vivo o mais especial possível. E o que me alegra é que consigo deixar de ter pena de não estar a reflectir.
E não preciso de álcool ou droga para alucinar. Alucino por mim mesmo.
Amo ser alucinado...

3 comments:

Anonymous said...

e não será a alucinação o motor do processo de criação? parece-me que sim . também concordo quando dizes "Mas se o presente do mal se realizasse não me faria sofrer mais do que já sofrera. E o presente do bem nunca me exaltará tanto como me exaltei imóvel na reflexão." a criação acaba sempre por provocar sofrimento, que por vezes acaba por ser uma boa sensação, o extâse :D

pelo que me diz respeito, e por tudo que já ficcionaste: obrigado por seres um alucinado!
abraço

Anonymous said...

Acabamos por, inconscientemente, alucinar uma versão tão perfeita do que poderia ser a vida, tanto para o lado divinal como drástico, pelo simples acto de estarmos sentados a olhar para o ar á espera do nada e onde as horas não contam pois não estamos absortos pela rotina e por obrigações artificiais. Podem ser histórias, podem ser mundos, podem ser adaptações de outros mundos em que nos pomos na pele da personagem principal em que sentimos todos os nossos desejos mais íntimos realizados da maneira como ambicionávamos que fosse ou nos fazemos passar pelo herói trágico e solitário. Enfim cada um acaba por se por na pele que desejar e experimentar múltiplas hipóteses do que poderia ser a vida na nossa alucinação.
E quando ela acaba também não há razão para parar de sorrir perante tal experiência inalcançável e perfeita da maneira que assim desejávamos, mas também se assim não fosse perdia a piada de alucinar certo? Se a vida acabasse tal e qual como a alucinação onde estaria o nosso prazer em nos perdermos no tempo em mundos irreais se poderíamos fazer o mesmo num mundo partilhado por todos nós?
Acredito que tudo o que alucino nas minhas horas de ausência e abstracção pessoal pode nunca vir a ser a mesma coisa, mas fica sempre aquela " esperança " estúpida mas que dá vontade de voltar a por os pés na Terra e continuar esse mundo onde “metade fica por dizer e outra metade fica por fazer”.
Talvez não tenha lógica, mas a confrontação entre o perfeito construído e o imperfeito vivido dê uma certa razão para cá estar e vontade de continuar esta alucinação.
Gostei imenso.

freespirit said...

É precisamente a alucinação o motor da criação. Pelo menos de alguma. Das minhas preferidas.

Isto das alucinações leva algumas pessoas a confundir onde está a barreira que separa a ficção da realidade do que escrevo.
Mas não será isto que torna a arte apetecível?
Eu gosto...
:)

Abraço e bjinho à minha nova leitora!